Nunca fiz questão de roupas de marca, nunca sonhei com aquele carro que todos querem, nem com uma viagem a Curaçao (a ilha, não a bebida). Não que eu não tenha sonhos (se não tê-los, melhor não viver - acabei de inventar, mas talvez tenha lido em algum lugar), mas em sua maioria não se relacionam ao consumismo exacerbado cultivado atualmente.
Tá, até entendo que um aborrecente queira uma camisa daquelas lojas de surfistinha (olha pra minha cara de quem pagaria R$ 150,00 numa camisa florida), para se sentir "enturmado", ou que o balzaquiano queira adquirir um carro do ano importado, só para mostrar aos outros que "chegou lá", mesmo que para isso tenha que vender sua alma, sua mãe, alugar seu loló e morar dentro do veículo.
O que não consigo conceber é, por exemplo, alguém comer caviar, que basicamente é ova podre de esturjão (um peixe que consegue ser mais feio do que bater na mãe no dia de Natal). Fico imaginando, lá no século XVII, na Rússia, o primeiro infeliz que teve a idéia de comer essa porcaria, que dá ânsia de vômito só de olhar.
Daí você responde: ora, não se pode dizer que odeia alguma coisa sem experimentar. Concordo, e sempre digo isso para minha filha. Mas - não vão falar pra ela que eu disse isso - nem toda verdade é absoluta. Eu, por exemplo, nunca tomei um coquetel infernal de ácido sulfúrico, com gotas de soda cáustica e uma pitada de enxofre (só pra dar consistência), mas algo me diz que realmente não agradaria meu paladar.
Certo, eu confesso, nunca experimentei caviar. Mais por falta de coragem do que oportunidade. Todavia, quem já comeu só vem corroborar minha tese de que é uma bosta.
Aí vem a questão: camarada paga fortunas pra comer ova de peixe estragado só pra dizer que é chi-quér-ri-mo? Me incluam fora dessa.
Eis, para mim, um dos grandes mistérios da humanidade. Querer aparecer, praticar o pecado capital da soberba, vá lá. Mas que pelo menos seja com alguma coisa tragável.
Daí eu volto pro russo que cismou de botar isso aí na boca, e só posso imaginar que foi algum tipo de aposta, e diante de tantas moedas de rublos, o infeliz comeu, e só pra não rirem dele, inventou que se tratava de uma iguaria refinada, digna dos reis. Pelo jeito, o poder de convencimento dele era bom, porque até o czar aderiu à moda.
Aliás, não é mentira, dizem que chique é comer tomando uma vodka. Pronto, não querem que eu trabalhe no dia seguinte. Acaba de uma vez com meu estômago e meu fígado, que já não anda lá essas coisas, capengando depois de 32 anos de trabalho árduo.
Enfim, não me coloquem à mesa uma latinha de caviar, porque educadamente recusarei. Sou mais comer farofa. E arrotar farofa. E se insistir muito para que eu experimente o caviar, ainda encho a boca de farofa e solto um: "Qué farofa?", com direito a chuva de grânulos para todo lado. Morra de inveja, Claudia Matarazzo!
Cenas do próximo capítulo: alguém aí já comeu escargot?


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